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quinta-feira, 9 de abril de 2009

A mulher esqueleto (lenda nuit)

Ela havia feito algo que seu pai não aprovava, embora ninguém mais se lembrasse do que havia sido. Seu pai, no entanto, a havia arrastado até os penhascos, atirando-a ao mar. Lá, os peixes devoraram sua carne e arrancaram seus olhos. Enquanto jazia no fundo do mar, seu esqueleto rolou muitas vezes com as correntes. Um dia um pescador veio pescar. Bem, em verdade, em outros tempos, muitos costumavam vir a essa baía pescar. Esse pescador, porém, estava afastado de sua colônia e não sabia que os pescadores da região não trabalhavam ali sob a alegação de que a enseada era mal-assombrada. O anzol do pescador foi descendo pela água abaixo e se prendeu - logo em quê! - nos ossos das costelas da Mulher-Esqueleto. O pescador pensou: "Oba, agora peguei um grande de verdade!!! Agora peguei um mesmo!". Na sua imaginação, ele já via quantas pessoas esse peixe enorme iria alimentar,quanto tempo sua carne duraria, quanto tempo ele estaria livre da obrigação de pescar. E enquanto ele lutava com esse enorme peso na ponta do anzol, o mar se encapelou com uma espuma agitada, e o caiaque empinava e sacudia porque aquela que estava lá embaixo lutava para se soltar. E quanto mais ela lutava, tanto mais ela se enredava na linha. Não importava o que fizesse, ela estava sendo inexoravelmente arrastada para a superfície, puxada pelos ossos das próprias costelas. O pescador havia se voltado para recolher a rede e, por isso, não viu a cabeça calva surgir acima das ondas; não viu os pequenos corais nas órbitas do crânio; não viu os crustáceos nos velhos dentes de marfim. Quando ele se voltou com a rede nas mãos, o esqueleto inteiro, no estado em que estava, já havia chegado à superfície e caía suspenso da extremidade do caiaque pelos dentes incisivos.- Agh! - gritou o homem, e seu coração afundou até os joelhos, seus olhos se esconderam apavorados no fundo da cabeça e suas orelhas arderam num vermelho forte. - Agh! - berrou ele, soltando-a da proa com o remo e começando a remar loucamente na direção da terra. Sem perceber que ela ainda estava emaranhada na sua linha, ele ficou ainda mais assustado, pois ela parecia estar em pé, a persegui-lo o tempo todo até a praia. Não importava de que jeito ele desviasse o caiaque, ela continuava ali atrás. Sua respiração formava nuvens de vapor sobre a água, e seus braços se agitavam como se quisessem agarrá-lo para levá-lo para as profundezas.- aaagggggghhhhh! - uivava ele, quando o caiaque encalhou na praia.De um salto ele estava fora da embarcação e saía correndo agarrado à vara de pescar. E o cadáver branco da Mulher-Esqueleto, ainda preso à linha, vinha aos solavancos bem atrás dele. Ele correu pelas pedras, e ela o acompanhou. Ele atravessou a tundra gelada, e ela não se distanciou. Ele passou por cima da carne que havia deixado a secar, rachando-a em pedaços com as passadas dos seus mukluks. O tempo todo ela continuou atrás dele - na verdade, até pegou um pedaço do peixe congelado enquanto era arrastada. E logo começou a comer, porque há muito tempo, muito tempo não se saciava.
Finalmente, o homem chegou ao seu iglu, enfiou-se direto no túnel e, de quatro, engatinhou de qualquer jeito para dentro. Ofegante e soluçante, ele ficou ali deitado no escuro, com o coração parecendo um tambor, um tambor enorme. Afinal, estava seguro, ah, tão seguro, é seguro, graças aos deuses, Raven, é, graças a Raven, é, e também à toda-generosa Sedna, em segurança, afinal.Imagine quando ele acendeu sua lamparina de óleo de baleia, ali estava ela - aquilo - jogada num monte no chão de neve, com um calcanhar sobre um ombro,um joelho preso nas costelas, um pé por cima do cotovelo. Mais tarde ele não saberia dizer o que realmente aconteceu. Talvez a luz tivesse suavizado suas feições; talvez fosse o fato de ele ser um homem solitário. Mas sua respiração ganhou um quê de delicadeza. Bem devagar, ele estendeu as mãos e, falando baixinho como uma mãe fala com o filho, começou a soltá-la da linha de pescar. Ele primeiro soltou os dedos dos pés, depois os tornozelos. Trabalhou sem parar noite adentro, até cobri-la de peles para aquecê-la, já que os ossos da Mulher-Esqueleto eram iguaizinhos aos de um ser humano. Ele procurou sua pederneira na bainha de couro e usou um pouco do próprio cabelo para acender mais um foguinho. Ficou olhando para ela de vez em quando, enquanto passava óleo na preciosa madeira de sua vara de pescar e enrolava novamente sua linha de seda. E ela, no meio das peles, não pronunciava palavra - não tinha coragem - para que o caçador não a levasse lá para fora e a jogasse lá embaixo nas pedras, quebrando totalmente seus ossos. O homem começou a sentir sono, enfiou-se nas peles de dormir e logo estava sonhando. Às vezes, quando os seres humanos dormem, acontece de uma lágrima escapar dos olhos de quem sonha. Nunca sabemos que tipo de sonho provoca isso, mas sabemos que ou é um sonho de tristeza ou de anseio. E foi isso o que aconteceu com o homem.
A Mulher-Esqueleto viu o brilho da lágrima à luz do fogo, e de repente ela sentiu sede. Aproximou-se do homem que dormia, rangendo e retinindo, e pôs a boca junto à lágrima.
Aquela única lágrima foi como um rio, que ela bebeu, bebeu e bebeu até saciar sua sede de tantos anos. Enquanto estava deitada ao seu lado, ela estendeu a mão para dentro do homem que dormia e retirou seu coração, aquele tambor forte. Sentou-se e começou a batucar dos dois lados do coração: Bom, Bomm!... Bom, Bomm!... E enquanto ela marcava o ritmo, começou a cantar em voz alta. E quanto mais cantava, mais seu corpo se revestia de carne. Ela cantou para ter cabelos, olhos saudáveis e mãos macias e gordas. Ela cantou para reaver seu dom de ser mulher e ter seios suficientes para dar calor. Ela cantou para ter sabedoria, para reaprender a amar, para ser inteira, íntegra e verdadeira. Quando estava pronta, ela também cantou para despir o homem que dormia e se enfiou na cama de peles com ele, a pele de um tocando a do outro. Ela devolveu o grande tambor - o coração -, ao corpo dele, e foi assim que acordaram, abraçados um ao outro, enredados na noite, juntos, agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro. As pessoas que não conseguem se lembrar de como aconteceu sua primeira desgraça, dizem que ela e o pescador foram embora e sempre foram alimentados pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo d'água. As pessoas garantem que é verdade e que é só isso o que sabem..."


Extraído do livro "Mulheres que Correm com os Lobos", de Clarissa P. Estés.


Obs.: nesta lenda, podemos fazer uma analogia da figura do pescador com a jornada de nosso ego na (re)descoberta da alma.

segunda-feira, 3 de julho de 2006

O mito de La Loba - A mulher selvagem

No mito, La Loba canta sobre os ossos que reuniu. Cantar significa usar a voz da alma. Significa sussurrar a verdade do poder e da necessidade de cada um, soprar alma sobre aquilo que está doente ou precisando de restauração. Isso se realiza por meio de um mergulho no ponto mais profundo do amor e do sentimento, até que nosso desejo de vínculo com o Self selvagem transborde, e em seguida com a expressão da nossa alma a partir desse estado de espírito. Isso é cantar sobre os ossos.
Não podemos cometer o erro de tentar extrair esse imenso sentimento de amor de algum ser amado, pois essa função feminina de descobrir e cantar o hino da criação é um trabalho solitário, um trabalho realizado no deserto da psique.
No mito e seja pelo nome que for, La Loba conhece o passado pessoal e o passado remoto pois ela vem sobrevivendo pelas gerações afora e é mais velha do que o tempo. Ela é a memória arquivada das intenções femininas. Ela preserva a tradição feminina. Seus bigodes pressentem o futuro; ela tem o olho opaco e sagaz da velha; ela viaja simultaneamente para frente e para trás no tempo, equilibrando um lado com a dança que realiza com o outro.
La Loba, a velha, Aquela Que Sabe, está dentro de nós. Ela viceja na mais profunda alma-psique das mulheres, a antiga e vital Mulher Selvagem. A história de La Loba descreve sua casa como aquele lugar no tempo no qual o espírito das mulheres e o espírito dos lobos se encontram — o lugar onde a mente e os instintos se misturam, onde a vida profunda da mulher embasa sua vida rotineira. É o ponto onde o Eu e o Tu se beijam, o lugar onde as mulheres correm com os lobos.

Trecho extraído do livro: Mulheres que correm com os lobos - de Clarissa Pinkola Estés

domingo, 19 de março de 2006

O lugar da fraternidade

Há uma lenda judaica que nos remete aos dias do Rei Salomão, e conta que nos campos de Sião viviam dois irmãos que ceifavam trigo. Uma noite, quando apenas a luz brilhava, o irmão mais velho juntou vários feixes de sua colheita e levou-os para o campo do irmão mais novo, dizendo a si mesmo:- Meu irmão tem sete filhos. Com tantas bocas para alimentar, pode ficar com uma parte do que consegui. Pouco tempo depois, sem saber do belo gesto do irmão mais velho, o irmão mais novo esgueirou-se para fora de casa, juntou vários feixes do seu próprio trigo e carregou-os para o campo do irmão mais velho, dizendo para si mesmo: - Meu irmão é sozinho, sem ninguém para ajudá-lo a ceifar. Por isso, vou dividir uma parte do meu trigo com ele. Quando o sol surgiu, cada um deles se admirou por encontrar exatamente a mesma quantidade de trigo que antes! No dia seguinte, cada um teve a mesma gentileza com o outro, e novamente, ao acordar, encontraram seus estoques sem redução. Mas na terceira noite encontraram-se carregando seus presentes, um para o campo do outro. As estrelas presenciaram um espetáculo belíssimo que com certeza jamais esqueceram. Os dois abraçaram-se com força e derramaram lágrimas de alegria pela bondade que os unia. E quando Salomão soube de seu amor, construiu ali o Templo de Israel, naquele lugar da fraternidade.

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